quinta-feira, 17 de março de 2011

Inspirações de "Somos Apenas Lixo"

Me perguntaram na segunda feira agora (14/3/11) qual foi a minha inspiração pra começar S.A.L.

Sempre fui fascinado por vilões. Claro que cada fase da minha vida eu me interessava pelo tema de uma forma específica. Quando era mais novo, adorava o Doutor Octopus (vilão do Homem Aranha). quando cresci, me fascinei pelos vilões mutantes (X-men) e de toda a dualidade que traziam pelas questões da aceitação do diferente, ainda que a força.

Mas o tempo passou e cresci. Influências novas vieram e novas vertentes literárias surgiram. Comecei a me interessar por heróis também, mas nunca heróis 100% bons. Constantine, Juiz Dredd, Monstro do Pântano, Santo dos Assassinos... Essas personagens e mais algumas começaram a moldar meus desejos em relação a criação de personagens. Não eram heróis, mas também não eram vilões e isso me fascinava. A partir daí, sempre que roteirizava, colocava um defeitinho no meu protagonista, na busca de humanizá-lo.

Um dia, os defeitos das minhas personagens começaram a aumentar. Meus protagonistas costumavam ser mentirosos, ou com amoralidades sociais. Comecei a me preocupar com isso, afinal de contas, meus personagens estavam deixando de ser "vendáveis" e talvez ninguém se sentisse a vontade pra apostar em um material assim. Então pensei no trabalho que estava fazendo e a mensagem aos meus futuros leitores era clara: Todos são protagonistas de suas próprias histórias, sejam eles bons ou ruins.

Aos poucos esse trabalho foi tomando forma. A necessidade de fazer algo voltado aos vilões foi crescendo. E um dia tive a primeira e mais importante inspiração pra essa história. Um exemplo partindo de uma pessoa de idade que rasgou o ursinho que a filha havia ganho do namorado, por puro ciúmes. Por necessidade de exteriorizar essa ideia, acabei colocando ela no papel. Assim surgiu Somos Apenas Lixo, como uma espécie de desabafo sobre a maldade, ainda que na época, não existisse o título. Era apenas uma história.

Aos poucos a inspiração foi vindo de forma avassaladora. Um tempo depois, relendo a primeira edição de Balas Perdidas (publicado pela ViaLettera. Escrita e desenhada por David Lapham. Altamente recomendado), vi um pedaço em que uma criança execra a outra por causa da cor da pele. Relembrei que as crianças são sinceras e, as vezes, cruéis. Acabou saindo uma HQ curta (que nesse exato momento estou admirando a página 50% pronta pelo traço a lápis de Felipe França), que mostra como as crianças isolam aqueles que não são do agrado delas.

Logo em  seguida, montei uma HQ sobre adultério, normalmente esse tema sempre tem algo novo pra se contar, de alguma forma diferente. A civilidade em um caso assim, nem sempre é fácil de manter. Mas em uma situação assim, quem é o vilão?

A história em seguida veio de uma inspiração inusitada: Pés. Algo que deixa muitas pessoas loucas de desejo. Mas como eu poderia criar uma vilania com um tema assim?

Eu me sentia bem porque as inspirações vinham de forma automática. Qualquer coisa virava uma HQ de SAL. Até um segredo revelado ganhou um roteiro. Esse caso foi mais particular, mas não muda o fato que usar meus próprios exemplos de vida como inspirações são algo estou aprendendo a fazer.
Depois disso, deu uma espécie de crise criativa. Não sabia o que fazer em relação a possíveis histórias e nem que tema abordar. Foi então que acabei presenciando uma situação de omissão. Percebi que as pessoas, na sua maioria, não se sentem bem agindo. Seja lá qual for o motivo, isso acontece. Percebi aí minha continuidade para SAL.

Comecei o 6º roteiro e foi mais fácil do que pensei. Um roteiro que tratava a omissão das pessoas. Aquele sentimento de "Vou fingir que não é comigo" prevaleceu na HQ. Os verdadeiros vilões nem sempre são quem parecem ser.

O 7º e último roteiro trata também de omissão, mas de uma forma mais disfarçada. Para bons entendedores poucas palavras bastam. Mas é algo duro de ler, pois todos nós já fizemos como as personagens dessa história.

SAL terá mais alguns detalhes após o término das 7 histórias. Mas isso só será revelado com o tempo.

Espero que vocês tenham gostado dessa divagação sobre como minhas inspirações se misturaram com a ideia de uma HQ sobre vilões do dia a dia. As coisas estão se encaminhando para que vocês tenham em mãos uma HQ com qualidade e com intenção clara de reflexão.

Abraços!

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